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Uma das principais críticas das pessoas que não gostam ou
que ainda possuem preconceito contra o café é de que a bebida
causa dependência. Talvez seja pela água que o café possui.
Pois caso uma pessoa seja colocada numa sala com alimentos,
mas sem água por uns poucos dias, ela reclamará a falta da
água. E apresentará sinais de dependência da água. Boca seca,
sede intensa, apatia, prostração e fraqueza são sinais iniciais
da falta de água. A seguir podem surgir delírios, alucinações
e alterações do comportamento. A pessoa lentamente fica confusa
e perde a consciência. A seguir entra em coma e morre. A primeira
coisa que cada ser humano faz ao nascer é se tornar dependente
químico. Ao respirar pela primeira vez o recém nascido torna-se
dependente do oxigênio para todas as atividades bioquímicas
de seu organismo. A seguir torna-se dependente químico do
mais nobre dos alimentos: o leite materno. E o amor e carinho
da mãe, o qual traz prazer e proteção ao recém nascido. Mais
tarde amplia esta dependência química para proteínas, glicídios,
lipídeos, vitaminas e sais minerais. São substâncias vitais
para o ser humano. E durante sua vida todo o ser humano torna-se
dependente das reações químicas que ocorrem no seu cérebro
causando prazer, alegria, felicidade e amor, decorrente de
diversas coisas naturais como a família, amigos, trabalho.
Tudo que ocorre na nossa vida causa reações químicas no cérebro
que são responsáveis pela alegria ou tristeza, prazer ou dor,
bem como todas as outras emoções possíveis. E além de formas
naturais de prazer, existem formas artificiais, como as drogas.
O egoísmo humano ainda é um dos mais poderosos instintos,
vinculado aqueles da sobrevivência, como nutrição e reprodução.
Este instinto faz com que aqueles incapazes de lutar e obter
sua felicidade de forma natural tentem conhecê-la pelo menos
de forma temporária e artificial através do consumo de drogas.
Por isto podemos nos tornar dependentes de coisas saudáveis,
como água, leite, café e exercícios (hábitos saudáveis) ou
dependentes químicos de substâncias que prejudicam a saúde
(vício), como o tabaco, álcool e drogas ilegais.
Todo cérebro humano usa apenas 10 % de sua capacidade. Mas
todo ser humano quer mais do que sua capacidade e além de
sua vontade. Todo mundo que ser um super-homem (ou mulher-maravilha),
ter um super-cérebro para obter um super-sucesso com uma super-fortuna
e uma super-fama. Mas nesta busca poucos são os que chegam
ao sucesso e muitos os que conhecem o fracasso, a frustração
e daí, a depressão e o uso de álcool e outras drogas. A química
cerebral que leva a depressão e ao uso compulsivo de drogas
com perda do controle, criando a dependência, começou a ser
compreendido apenas recentemente. O bombardeamento excessivo
do cérebro por estas substâncias causa adaptações moleculares
permanentes de diversos sistemas neuronais. Dentre as drogas
que causam dependência, apenas os opióides e o álcool interagem
com neurônios causando uma significativa dependência somática.
Por outro lado, todas as drogas que causam dependência (nicotina,
cocaína, álcool, maconha) parecem ativar e produzir alterações
permanentes nos circuitos dopaminérgicos do sistema límbico
que controlam a motivação e o comportamento.
Acredita-se que a principal via envolvida na origem da dependência
a drogas parece ser a via dopaminérgica que se estende da
área tegmental ventral, uma região de formação reticular mesencefálica
que envia fibras para áreas telencefálicas pertencentes ao
sistema límbico, como o núcleo amigdalóide, a área septal
e o córtex do giro do cíngulo. Esta via mesolímbica também
parece estar envolvida na motivação e comportamento necessário
para a sobrevivência humana e para o processo reprodutivo,
incluindo o próprio ato da reprodução.
O próprio processo de escolha e consumo de alimentos pode
não ter sido uma forma específica de seleção no processo evolutivo.
Talvez a ativação deste sistema mesolímbico dopaminérgico,
alimentos (e drogas) podem levar a uma gratificação e condicionamento,
fortalecendo mecanismos de memória e aprendizado. Quando algo
estimula este sistema, imediatamente é reconhecido e lembrado
vividamente, inclusive as circunstâncias que levam ao seu
uso ou consumo.
A cocaína, a nicotina, os opióides e o etanol são todos originariamente
subprodutos de plantas ou da fermentação natural e atuam como
substâncias condicionantes e capazes de gerarem dependência
porque mimetizam ou aumentam as ações dos neurotransmissores
que atuam nos mecanismos de gratificação, prazer e aprendizado
do ser humano. A cocaína inibe a recaptação da dopamina, aumentando
sua duração e seus efeitos nas sinapses do sistema mesolímbico
enquanto que a anfetamina libera a dopamina dos neurônios
dopaminérgicos. Opióides como a morfina e a heroína mimetizam
neurotransmissores opióides (encefalinas) que atuam diretamente
no núcleo acumbens mas que podem também atuando de forma desinibitória
na área tegmental ventral(VTA), favorecendo a liberação de
dopamina. A nicotina mimetiza a ação de acetilcolina nos receptores
nicotínicos centrais enquanto que o etanol possui um poderosos
efeito facilitador nos receptores GABAérgicos. Embora as ações
da nicotina e do etanol nos circuitos de gratificação do cérebro
não sejam ainda completamente conhecidas, sabe-se que ambas
as substâncias causam uma maior liberação de dopamina no núcleo
acumbens e sistema límbico (ver Figura
1).
E este aumento dos níveis de dopamina pode ser inibido em
diversas etapas, como através do uso de antagonistas de receptores
opióides do sistema, como o naltrexone, o qual se constitui
num novo avanço no tratamento do alcoolismo. Descobertas recentes
em medicina caracterizaram que o ser humano, além de selecionar
plantas (nicotina, cocaína, heroína, álcool) que estimulem
esta forma de prazer no sistema límbico, também identificou
plantas que podem estimular o córtex cerebral, aumentando
a atenção e memória, além de bloquear a função exagerada do
sistema límbico através deste sistema opióide, modulando ou
interferindo no desejo de auto-gratificação que leva ao consumo
de drogas. Isto explica porque o café é a planta mais consumida
no mundo.
O problema é ser dependente de algo que prejudique a saúde
- o vício (álcool, tabaco, drogas ilícitas). O que não é o
caso do café, se ingerido em doses moderadas e de forma regular.
Uma pessoa se torna dependente de algo prejudicial quando
não consegue todos ou a maioria dos itens que causam a dependência
saudável. O Quadro 1 apresenta as principais
causas de dependência saudável ou prejudicial ao ser humano.
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| Explicação
- Figura 1 - No sistema límbico existe uma rede de conexões
entre células nervosas que liberam peptídeos endógenos (encefalinas,
endorfinas), os quais regulam o teor final de dopamina, no núcleo
acumbens. Esta via parece estar envolvida na motivação e comportamento
necessário para a sobrevivência humana, incluindo o próprio
ato da reprodução. Por exemplo, a escolha e o consumo de alimentos
podem não ter sido selecionados de forma específica no processo
evolutivo mas através da ativação do sistema límbico dopaminérgico,
alimentos (e drogas) podem levar a uma gratificação e condicionamento,
fortalecendo mecanismos de memória e aprendizado. Quando algo
estimula este sistema, imediatamente é reconhecido e lembrado
vividamente, inclusive as circunstâncias que levam ao seu uso
ou consumo. A cocaína, a nicotina, os opióides e o etanol são
todos originariamente subprodutos de plantas ou da fermentação
natural, e atuam como substâncias condicionantes e capazes de
gerarem dependência porque mimetizam ou aumentam as ações dos
neurotransmissores que atuam nos mecanismos de gratificação,
prazer e aprendizado do ser humano. A cocaína inibe a recaptação
da dopamina, aumentando sua duração e seus efeitos nas sinapses
do sistema mesolímbico, enquanto que a anfetamina libera a dopamina
dos neurônios dopaminérgicos. Opióides como a morfina e a heroína
mimetizam neurotransmissores opióides, que atuam diretamente
no núcleo acumbens mas que podem também atuar de forma desinibitória
no sistema límbico, favorecendo a liberação de dopamina. A nicotina
simula a ação de acetilcolina nos receptores nicotínicos centrais,
enquanto que o etanol possui um poderoso efeito facilitador
nos receptores do aminoácido Gama-Amino-Butírico (GABA). A nicotina
e o álcool causam uma maior liberação de dopamina no sistema
límbico. E este aumento dos níveis de dopamina pode ser inibido
em diversas etapas, como através do uso de antagonistas de receptores
opióides. O remédio naltrexona, usado no tratamento do alcoolismo,
atua bloqueando os receptores opióides no início do circuito
de gratificação do sistema límbico e o fármaco bupropiona, usado
no tratamento do tabagismo, atua no final do circuito aumentando
os níveis de dopamina, modulando e suprimindo assim o desejo
excessivo de prazer obtido através da nicotina, sendo um eficaz
agente no controle do tabagismo (Adaptado de Hyman, 2001 e Messing,
2001). |
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REFERÊNCIAS:
1 - Nehlig, A.; Daval, J.
L.; Debry, G. Caffeine and the central nervous system: mechanism
of action, biochemical, metabolic and psychostimulant effects.
Brain Res. Rev., 1992. v. 17, p.139-170.
2 - Lima, D. R. Cafeína e
Saúde. Rio de Janeiro: Record, 1989. 130 p.
3 - Lima, D. R. Cuidado!!!
O popular café e a poderosa mulher... podem fazer bem à saúde.
Petrópolis: Medikka Ed. Científica, 2001. 111 p.
4 - Lima, D. R. História da
Medicina. Rio de Janeiro: Medsi Ed. Científica, 2003. 324
p.
5 - Lima, D. R. Manual de
farmacologia clínica, terapêutica e toxicologia. Rio de Janeiro:
Medsi Ed. Científica, 2003. 3 Volumes, 3.456 p.
6 - Lima, D. R. QI, Café,
Sono e Memória. Rio de Janeiro: ECN, 1995. 120 p.
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